A LEGALIDADE NÃO DITA A MORALIDADE

Leão XIV admoesta uma Ética sem Conteúdo e Política sem Compromisso

Em Lurdes, o Papa Leão XIV argumentou: “É impossível considerar normal o acto de pôr fim a uma vida. O que é legal não é necessariamente moral”. Esta afirmação recorda-nos que a moral não perdeu o seu sentido. Enquanto o legal se refere ao que está em conformidade com o direito positivo, a moral avalia o que é justo ou injusto, digno ou indigno, certo ou errado. Resta ainda  à ética o papel de reflexão crítica sobre a moral, embora o termo seja frequentemente usado como sinónimo desta ou como sinónimo de código de conduta.

Como bem sublinhou Leão XIV, algo pode ser legal e permanecer imoral. A legalidade não implica legitimidade moral. Leis contra a vida, racistas, escravistas ou autoritárias serão legais em certos contextos  e nem por isso deixam de ser profundamente imorais.

Sempre que se ouve dizer que a “moral perdeu conteúdo”, comete-se o erro de saltar de uma constatação empírica, de que a política se orienta por interesses e desrespeita a moral, para, a partir daí se chegar a uma conclusão conceitual errada: a de que a palavra moral ou ética perdeu o sentido. Trata-se de uma conclusão apressada. O facto de um valor ser violado repetidamente não o esvazia, apenas mostra que ele não foi cumprido. Se a ética tivesse realmente perdido o conteúdo, não teríamos sequer um critério para classificar a política como imoral. A própria denúncia da imoralidade pressupõe que a ética mantém o seu valor normativo.

O que certamente tem perdido conteúdo é o uso público da palavra “ética”, que se tornou etiqueta de comissões, discurso de posse, marketing institucional e hipocrisia. Aí sim, assiste-se a um esvaziamento retórico. No entanto, isso é diferente de dizer que a ética, enquanto reflexão crítica, perdeu validade. Não é a ética que perdeu conteúdo, mas sim a política que, frequentemente, perdeu o compromisso com ela. O que testemunhamos é o uso vazio do termo, não o fim do critério ético.

Muitos, ao apontarem esta falta de ética ou de moral, expressam um desencanto legítimo com a política, mas retiram daí uma conclusão filosófica indevida. A legalidade não é moralidade e a imoralidade frequente não anula a ética, apenas revela como ela continua a ser desprezada e desrespeitada. Como princípio fundamental, os governantes deveriam governar com respeito pela lei e pela moral do povo que dirigem.

Para a moral católica, a consciência individual é a autoridade soberana nas decisões morais, sobrepondo-se inclusive também à lei da Igreja. Embora possa errar, a responsabilidade moral de cada pessoa é estritamente ditada por aquilo que a sua própria consciência determina.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

 

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PARA OS BAIRROS ONDE HÁ POUCA LUZ

Se a pólis se engasga com homem, mulher, diverso,
e o género anda embrulhado em discurso perverso,
decretem a nudez nos bairros sem luz,
menos roupa no corpo, mais verdade que seduz.

Cai a saia, cai o véu, cai a calça e o pudor,
fica a pele a explicar o que não explica o amor.
E o contrapeso mental, esse peso de chumbo,
vai à corda, como roupa, a secar em cima dum muro.

Pois só assim o enfeite ganha peso e lugar,
e a mente, leve de mais, aprende a não julgar.
Mas se a nudez resolve a velha confusão,
dispam-se também as ideias e não só o calção.

Porque o busílis não é o sexo, a cor nem o nome,
é a mania de querer que o mundo caiba num só molde.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©

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UM PAPA SEM “PAPAS NA LÍNGUA”

 

Leão XIV chegou a Paris (25.09.2026) e não se perdeu nos corredores da diplomacia. No seu primeiro grande discurso em França, perante as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático, o Papa colocou sobre a mesa alguns dos problemas mais prementes da humanidade. Falou com a cortesia própria de um chefe de Estado, mas também com a liberdade de quem não quer reduzir a palavra cristã a ornamento protocolar.

Na “Cidade Luz”, carregada de história e simbolismo, Leão XIV recordou as raízes cristãs da França e a contribuição deste país para a cultura europeia e para a afirmação dos direitos humanos. No lema republicano, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, reconheceu valores que ultrapassam fronteiras políticas e nacionais, verdadeiras “exigências éticas universais”.

É precisamente aqui que começa a interpelar o nosso tempo. Perante um progresso científico e tecnológico que parece não conhecer limites, torna-se necessário “recolocar a pessoa humana no centro de toda a reflexão”. A técnica pode servir o homem, mas também pode condicioná-lo, instrumentalizá-lo e, no limite, subjugá-lo.

Daí a advertência particularmente atual sobre a Inteligência Artificial. Leão XIV recorre a uma imagem feliz e inquietante: o “paraíso das máquinas”. Quanto mais sofisticadas forem as máquinas, mais necessário será perguntar quem as governa, para que finalidade são utilizadas e segundo que critérios. “Para não perdermos a nossa humanidade no meio do ‘paraíso das máquinas’”, adverte o Papa, “é urgente formar os espíritos para um discernimento ético”. A técnica não contém em si mesma a medida do bem.

A questão é de enorme alcance. Não basta perguntar o que a tecnologia consegue fazer. É preciso perguntar o que deve fazer, o que lhe devemos permitir fazer e aquilo que, mesmo sendo tecnicamente possível, não deveria ser humanamente admissível. Uma civilização pode tornar-se tecnologicamente avançadíssima e, simultaneamente, regredir na consideração da dignidade da pessoa.

Essa dignidade conduz Leão XIV a outro dos grandes temas do discurso: a vida. Numa sociedade em que até o nascimento e a morte correm o risco de entrar na lógica da produção, da seleção e do mercado, o Papa recorda a necessidade de “acolher a vida incondicionalmente”. Da manipulação genética à gestação de substituição, do comércio de órgãos à possibilidade de programar a própria morte, a questão de fundo permanece a mesma: será a pessoa um fim em si mesma ou acabará transformada num produto disponível?

Também no domínio da relação entre religião e Estado, Leão XIV não fugiu a uma questão particularmente sensível em França. “A verdadeira laicidade não exclui a dimensão religiosa”. Esta afirmação não significa confundir Igreja e Estado nem reclamar privilégios para uma religião. Significa reconhecer que a fé e as convicções religiosas fazem parte da vida dos cidadãos e podem contribuir para o debate sobre o bem comum.

Neste contexto, ganha especial significado uma afirmação de Emmanuel Macron dirigida aos bispos franceses: “uma Igreja que pretenda desinteressar-se das questões temporais não cumpriria plenamente a sua vocação; e que um Presidente da República que pretenda desinteressar-se da Igreja e dos católicos falharia ao seu dever”. É uma formulação que traduz uma  traduz uma evidência democrática: separar instituições não significa condená-las à indiferença mútua.

E chegamos à grande ferida aberta do nosso tempo: a guerra.

Ao referir-se à grande ferida aberta do nosso tempo, Leão XIV foi explícito ao dizer “A paz não é um equilíbrio de forças”. Não é o medo recíproco, nem a quantidade de armas acumuladas, que pode oferecer à humanidade uma segurança verdadeiramente duradoura. Pelo contrário, “A paz não é um equilíbrio de forças, mas constrói-se dia a dia com o diálogo e a justiça”.

Num mundo que volta a familiarizar-se perigosamente com a linguagem das armas, das ameaças e do rearmamento, o Papa lança um apelo que deveria ser ouvido muito para além de Paris:

“Exorto-vos, portanto, a nunca vos resignardes à perspectiva de uma guerra, considerando-a ‘inevitável’, mas a promover incansavelmente o diálogo e a diplomacia, a fim de preservar sociedades pacíficas, respeitadoras da dignidade e dos direitos da pessoa e dos povos”.

Esta é talvez uma das passagens politicamente mais fortes do discurso. Quando a guerra começa a ser apresentada como inevitável, já se deu um passo perigoso para a sua aceitação. A linguagem prepara mentalidades e as mentalidades acabam por preparar campos de batalha. Contra a resignação ao fatalismo bélico, Leão XIV contrapõe diálogo, diplomacia, justiça e respeito pelos povos.

Por isso, a sua mensagem dirigida à França adquire dimensão europeia e universal: “Possa a França, fiel aos seus valores, abrir caminho para uma paz desarmada e desarmante”.

“Desarmada e desarmante” são  duas palavras que encerram quase um programa político. Desarmada, porque a paz não pode depender indefinidamente da ameaça de destruição; desarmante, porque uma paz autêntica deve ser capaz de diminuir o medo, a hostilidade e a necessidade de transformar o outro em inimigo.

Há um fio condutor que atravessa todo o discurso e se resume em recolocar o ser humano no centro. Antes da máquina, a pessoa. Antes do lucro, a dignidade. Antes da força das armas, o diálogo. Antes da eliminação de quem sofre, o acolhimento. Antes da uniformização das consciências, a liberdade e  antes dos interesses particulares dos Estados, a fraternidade entre os povos.

Num mundo fascinado pelas possibilidades quase ilimitadas da tecnologia e, simultaneamente, assustado com a possibilidade de novas guerras, Leão XIV chama a atenção para um paradoxo: podemos construir um sofisticadíssimo “paraíso das máquinas” e, ao mesmo tempo, preparar um inferno para os homens.

Leão XIV, no dizer popular português, mostra-se como Papa “sem papas na língua” que faz a pergunta à França, à Europa e a cada um de nós: de que serve avançarmos tanto, se pelo caminho perdemos a nossa humanidade?

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

Ps: Em Lurdes o Papa Leão XIV argumentou: “É impossível considerar normal o acto de pôr fim a uma vida. O que é legal não é necessariamente moral”.

Numa visita ao Instituto Católico de Paris, o Papa felicitou os 20 mil batizados de adultos num só ano, em França.

Em 25 de setembro de 2026, 1 milhão de pessoas se reúnem na Place de l’Etoile, ao longo dos 2 km dos Champs Elysées e da Place de la Concorde, para uma Missa papal que surpreendeu o próprio Papa.

O papa em Paris desmascarou os impostores que vivem das guerras e levam o povo atrás delas!

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CÍCLO POÉTICO DA VIDA E SUAS CIRCUNSTÂNCIAS

À VARANDA DA VIDA

À varanda da vida me sento a mirar,
Sonhos de alma em frágil embrulho,
Papel que envolve o fado a dançar,
Por caminhos onde a poesia faz arrulho.

A noite, em rimas, tece o enredo,
Entre prosa e verso me encontro preso
Faísca de amor, sigilo aceso,
Beijos clandestinos clareiam meu segredo.

Pelas ruas, em ventos, me vejo levado,
Por ti, Mulher, desejo desenhado…
No vazio já desperto, sou só caminho,
Mas contigo sou a sombra que dá carinho.

Sim meu amor, de nome mulher
Em ti sou passo, sombra que almeja,
Morar num sol que o longe despeja
Em mar virgem de tudo sedento.

Deixa-me vagar, livre e errante,
Terra e sol em abraço constante,
Sonhar caravelas ao mar entregues,
Em aurora perdida que o sonho segue.

Na ilha dos amores, ao luar que dança,
Degustamos estrelas, luzes de esperança,
Sem Adamastor, num céu que avança,
Sulcando o mar que em nós se amança.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

 

 

ANDAR COM A VIDA

Não vás à frente da vida,
na pressa de chegar primeiro;
nem fiques atrás,
como quem perdeu o próprio rasto.

 

Vai ao lado dela, ombro a ombro,
no ritmo do vento e do rio.

 

A vida não é coroa nem cinza,
é companheira de estrada
que só revela o sentido
quando contigo caminha.

 

Vale a pena a travessia
se o viajante e o caminho
aprendem a mesma canção.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

DE TRONCO AO VENTO

A verdade é vento que passa
por todos os rostos do mundo,
às vezes lâmina de inverno,
às vezes brisa de verão.
Não importa se ela grita ou canta,
importa é teres raiz no chão.

Que a árvore não tombe
ao primeiro sopro da dor,
nem se deixe dobrar
ao canto mole da mentira.

Comunicar é abrir janelas,
esperar é deixar o fruto amadurecer.
Mas não tropeces na espera,
transforma a paciência em chão,
mas nunca em prisão.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

ENTRE AS GOTAS DO MILAGRE
SEM NOTAR O ORVALHO

A bênção divina é chuva
caindo em gotas sobre a vida.
Muitos gastam os dias
a negar Deus entre as gotas,
e perdem o orvalho no intervalo.

Mas mais que a gota e o silêncio,
importa admirar o milagre:
a anémona abrindo-se ao sol,
o pulso do ser mais pequeno,
o rosto humano que espera.

Somos guardiões do jardim,
abençoar é a missão,
regar, cuidar, agradecer,
do lodo à estrela,
da flor ao irmão.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

A SINGELEZA

 

Sabedoria sem holofotes.
Basta-lhe a candeia de barro,
o fio de azeite,
a chama pequena do que é verdadeiro.

 

Bálsamo sobre a ideia ferida,
a humildade cura o pensamento.
desata os nós do ego.
Deixa a porta aberta
e o outro entra sem medo.

 

Não é fraqueza, mas água mansa
que esculpe a pedra, com o tempo.
Não é silêncio vazio, mas raiz

que sustenta a árvore
quando o vento das opiniões
quer desabar o mundo.

 

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

 

UMA FRESTA NO DIA-A-DIA

 

Uma fresta de verdade,
a claridade rasga a sombra.
Escusa-se o incêndio no horizonte,
bastam a réstia, o gesto, a palavra,
e o escuro recua.

 

Humildade no leito,

a relação flui como o rio.
Vida livre de peixes

que nadam
sem precisar de vencer.

 

Assim, o curso dos dias,
é luz sem cegueira,
bálsamo sem gravidade,
água que fecunda.
Do sol à estrela,
da lua ao chão,
do rio ao coração.

 

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

EM CONTEMPLAÇÃO

 

De dia, olho a natureza,
agradeço ao sol
que em cada coisa me acena.
Na cor da flor, no voo do pássaro,
no mistério da pedra,
na variedade inteira do criado.

 

De noite, o céu estrelado.
Pequenos olhos de fogo a piscar,
abertos sobre o meu silêncio.

É a lua quem me embala o sentimento.
No seu luar me vejo,
entre a terra e o firmamento,
a divagar.

 

Sou poeira e abrigo,
caminho e luar.
Na órbita da lua
aprendo a não ser centro,
a ser companhia
da noite e do mar.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

AO CHEIRO DA COR DO CRAVO

A história do meu povo
Ainda está por contar
Ela corre no Douro e Tejo
Em busca do Sol no mar.

No rasto da ditadura
Da ditadura se vão
Os abutres de Abril
À conquista da nação

Cívicos de profissão
Os pupilos da revolta
No cheiro se vão
Do cio do cravo

Em togas de doutores
Todos andam enfeitados
Com os cravos roubados
Nas promessas do Abril

Abril beijo de liberdade
De lábios em movimento
Num Estado embrulhado
De falas sem pensamento.

Falta dele o despontar
De um sonho por abrir
De uma carta por sonhar
Abril anda triste sem florir

Do povo fica a marcha
Da nação a desobriga
Da liberdade a cantiga
Dos heróis de Abril a lábia

Na cidade passa agora
Um cheirinho a demónio
Anjos de ontem na onda
Dos tempos do António.

A história do meu povo
Ainda está por contar
Ela corre no Douro e Tejo
Em busca do Sol no mar!

António da Cunha Duarte Justo

Poesia publicada no meu livro “Pegadas da Poesia”, Oxalá Editora, 2018

 

A CAMINHO DA MESMIDADE

Procuro a verdade
como quem caminha
ao lado de um rio invisível,
ouvindo a água
mesmo quando não a vê.

Houve um tempo especial
em que o silêncio das cúpulas
me ensinou a leveza:
ajoelhado, o corpo ficava no chão
e a alma espírito e psique
abria asas por dentro
e flutuava na altura mansa do mistério.

Não era fuga, nem espetáculo,
era apenas paz, um voo sem destino,
um repouso no ar como se Deus
fosse um espaço de respiro.

E houve também o quarto,
a lágrima como oração,
o coração ferido
pela incompreensão dos homens,
quando tudo parecia ruído e regra,
e o bem feito aos outros
mostrava não caber
nos relógios do mundo.

Chorei… e nesse choro
ardeu um calor antigo,
uma presença sem forma,
um amor tão seguro
que nenhuma voz exterior
o podia destruir.

Desde então compreendi!
Há verdades
que não se demonstram,
há luzes que não se explicam,
há instantes Cairos
em que a eternidade toca o tempo
e o tempo, por um segundo,
se torna vivência.

Sou racional, dizem.
E é verdade.
Mas a razão é apenas
uma lanterna na noite,
não o céu inteiro.

Trago em mim
uma sede que não quer posse,
uma fé que não exige provas,
um saber que não grita,
porque apenas chama.

Não busco o fim da estrada,
porque a estrada já é encontro.
Não busco a meta,
porque o caminho é casa.

E talvez seja isto
o grande segredo:
a verdade não é troféu,
é companhia.

Ela acontece
quando o coração se torna simples,
quando o amor é mais real
do que a dúvida,
quando até a ausência
tem perfume de presença.

Ciente da minha pouquidade
de meu ser terra em terra sagrada
ando à procura,
não para agarrar,
mas para ser tocado.

E no fundo, arraigado,
caminho assim, caminhamos todos
como quem atravessa a vida
com uma pequena chama na mão,
sabendo que o vento existe,
mas também existe uma luz
que nenhum vento apaga.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

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O SOLDADO DO PARTIDO

O sistema, apascentador
achou no rebanho o seu tesouro,
trocou o miolo por calor,
o pensamento por choro.

Não quer gente que pergunte,
quer soldados em fila a marchar;
cada cabeça é uma só frente,
cada boca, um só gritar.

Dizer “eu acho” é democratizar,
a dúvida é traição;
quem pensa pode incomodar,
quem cala ganha promoção.

E assim se faz um partido
de emoção e opinião,
muito aplauso, pouco sentido,
muita farda, pouca razão.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

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